Quem está no comando? Jornalismo nos tempos de IA

*Artigo publicado na Revista “Memória da Imprensa”, edição nº 6, de dezembro de 2024, editada pela Associação Bahiana de Imprensa.
Não adianta negar. Temos um concorrente que não se limita a conquistar a nossa audiência. Ele avança sobre a essência do nosso ofício e, sob alguns aspectos – dói admitir – ele é melhor que a gente.
Antes de brigar comigo ou jogar a toalha, proponho que se sente, pegue um café e mantenha o senso investigativo que é condição primordial para quem insiste em ser jornalista. Mantenha-se perto, amigo, porque queremos trazer o inimigo para mais perto ainda.
Estamos diante de uma tecnologia que fascina e apavora. Afinal, ela tem um potencial de causar um impacto do mesmo tamanho daquele causado pela eletrificação. Só que num intervalo de tempo muito menor. As inteligências artificiais generativas vieram para nos mostrar que é possível ter textos, vídeos, músicas, pinturas e até algo muito semelhante à fotografia realizados com a mínima interferência da criatividade humana. Grifo no “mínima”, editor. Porque alguém precisa dar o comando, escrever o PROMPT. E é aqui onde está a chave da nossa conversa.
Pensando nas ferramentas que geram textos, como ChatGPT e Gemini, as chamadas LLM, Grandes Modelos de Linguagem, na tradução. Elas foram carregadas com um volume quase infinito de textos produzidos por seres humanos para que aprendessem o jeito que escrevemos, como encadeamos raciocínios, a forma que explicamos conceitos. Esse treinamento ocorreu, em boa parte, com conteúdo jornalístico. Mas por quê?
“Textos jornalísticos são ideais para treinar modelos de linguagem porque são bem escritos e seguem normas gramaticais, ajudando na produção de linguagem clara”, revela o ChatGPT. “Eles cobrem uma ampla gama de temas, enriquecendo o vocabulário do modelo, e refletem o uso atual da língua, incluindo expressões contemporâneas. Além disso, o foco em objetividade e precisão factual desses textos aprimora a habilidade do modelo em fornecer respostas informativas”, completa o chatbot avançado de linguagem natural. É como se elas tivessem estagiado em nossas redações. Em todas ao mesmo tempo.
Uma vez que ela aprendeu com a nossa produção, faz sentido que agora a gente saiba como aproveitar o que há de melhor nessa ferramenta. Sem perder de vista que, por mais fascinante que seja, é tão somente uma ferramenta. Toda tecnologia é uma excelente serva e uma terrível senhora. A gente precisa ter muita clareza sobre quem é que manda.

“Em um mundo cada vez mais automatizado pela IA, os jornalistas se tornam os guardiões da ética e da profundidade nas informações”, avalia o Gemini. “Enquanto a IA processa dados rapidamente, os jornalistas são indispensáveis para a análise crítica, a investigação aprofundada e a construção de narrativas significativas, garantindo a qualidade e a relevância do jornalismo”, explica o sistema.
A IA de texto é muito superior a qualquer um de nós para pegar um volume gigantesco de material, processá-lo e gerar um resumo. É bastante eficiente, mais do muitos colegas de carne e osso, para revisar gramaticalmente um conteúdo, ainda mais aquele na hora do fechamento. Rapidamente, ela gera variações para canais diferentes e, bem treinada, pode sugerir títulos e até uma primeira base de texto para uma matéria. É uma mão na roda para degravar áudios enormes de forma praticamente instantânea. E onde ficamos?
Se ela é boa para nos dar respostas e realizar grandes volumes de tarefa, alguém precisa fazer as perguntas. E jornalistas são grandes perguntadores, o que faz de nós profissionais de linha de frente na relação com essa tecnologia. Isso não é uma visão corporativista sobre o futuro das profissões em tempos de IA. Conversei com executivos de empresas baseadas nesta tecnologia e todos apontam que jornalistas, psicólogos e advogados saem na frente para usar um instrumento que deve ser questionado para funcionar. E a linguagem direta e objetiva do jornalismo nos dá uma certa vantagem.
Por mais que as inteligências artificiais gerem textos, elas não criam textos. Elas reescrevem. São uma mistura de arquivista e copidesque. Substituem bem aquele estagiário diligente e metódico que entrega exatamente o que foi pedido, escrito corretamente e nada mais. A IA é aquele repórter que volta sem matéria nenhuma para a redação porque a pauta era “dia do professor” e, chegando lá, a escola estava pegando fogo. Ela só vai fazer estritamente o que você pedir. Mas, pedindo direitinho, ela entrega.
Se você ainda não colocou uma IA na sua rotina, faça-o urgentemente. Mais que uma, se puder, para descobrir a que melhor funciona para você. Há muitas tarefas que você poderá delegar a esse novo assistente, desde que crie intimidade com esse potencial. Por isso, estresse essa relação, coloque o robô em desconforto, proponha desafios. Nosso concorrente bem empregado será um forte aliado, ajudando com respostas rápidas a quem fizer boas perguntas. É o grande momento para usar aquilo que jornalistas têm de sobra: a curiosidade.